A CATARSE POÉTICA

(*) Mhario Lincoln 

Pego e folheio vagarosamente o livro "Sozinhes", de Vera Albuquerque incluído na coleção Marianas, editada pela Bolsa Nacional do Livro. 
Leio pedaços de uma obra que há muito tingia cadernos da adolescência, guardados nas gavetas do tempo. Passagens poéticas com ritmo poético e vontade poética. Às vezes passagens duras, outras líricas, outras desabafo.

Então, após ler o livro, fui pesquisar mais sobre Vera Albuquerque. Aquela obra em minhas mãos era pouco para descer a sua consciência criativa, como que usando a força da hipnose de Franz Anton Mesmer ou de Sigmund Freud, em mim mesmo. Precisava descobrir a essência daquela voz que parecia aprisionada à fatos d'antes arquivados numa memória sofrida. Contudo, através dos versos, finalmente exposta como catarse.

Daí, essa linha melódica no trabalho de Vera Albuquerque. Mas uma melodia íntima, solitária e sofrida. Em alguns momentos lembrou Caio Fernando Abreu: "Ah, então foi pra ele que eu dei meu coração e tanto sofri?/ Amor é falta de QI, tenho cada vez mais certeza."
Ou Abílio Guerra Junqueiro, ao catarsear-se: "A vida é um calvário. Sobe-se ao amor pela dor, à redenção pelo sofrimento (...)."

Sim. Na minha análise descobri em várias composições de Vera Albuquerque uma catarse íntima. Mas... e simplesmente ... desanuviadora, libertadora. E isso fê-la muito bem. Graduou-a em amar a vida, pós-graduou-a em superar dores, a fez mestra em seguir em frente e doutura por superação e denodo.

Em alguns de seus versos dentro do universo de sua obra, senti inveja de expressar verdades que ela expressou com tanta singularidade e diretiva:

 

"Não! Não me ame.
Não me ame por motivos que te fazem achar que me ama.
As razões desse amor não estão em mim.
E também não sei onde estão.
Não me ame. Eu te imploro – NÃO ME AME.
O amor que sente por mim é um fardo, um peso,
um muro no meu caminho que me faz parar. (...)"

Veja o êxtase conceitual do poema: "... as razões desse amor não estão em mim...". Clarividência? Simples construção poética? Versos impactantes? Não! É o que se chama de linguagem    sensorial, aqui, retratada através do momento mais importante dessa construção, quando a autora fala corajosamente de sua condição sentimental diante de um fato que realmente aconteceu; e não, apenas, um fato maqueado para dar sustentabilidade poética ao todo.

Eis a diferença: Vera Albuquerque escreve o que sente; e não contrói o verso com forma aleatória ou discursiva ou colorida para dar aparência fictícia a sua obra. Grande parte do que li em seu último livro, tem sangue nas tintas. Tem lágrima tingindo o papel. Seu livro "Sozinhes" é um exemplo de como é a produção, neste primeiro momento cartasiânico. Como ela mesmo disse: "... uma gestação longa, intensa, repleta de medos, contentamento e descobertas...".

Obvio que uma mulher assim conserva dentro de si virtuoses especiais e quando a oportunidade se lhe aparece, consegue construir algo em Sí Benol:
 
"Porque suas mãos me olham e seus olhos
passeiam em mim...
Quieta, sinto o que elas me dizem e,
Meus olhos fechados, escutam seus dedos
De pianista fazendo da minha pele
o número 3 de Rachmaninoff." 

As oitivas de Vera Albuquerque com seus anjos ou demônios se traduzem em sua vasta obra; até agora, como ponta do iceberg, vista em "Sozinhes". Resta-nos, pobres mortais, esperar para ler mais suas entranhas poéticas, verdades poéticas, catarses poéticas. 
Afinal, essa catarse poética é na mais pura verdade, a meu ver, a purificação dessas emoções da autora tão presentes, como que branindo e vibrando ao seu derredor.
Contudo e data vênia, "Sozinhes" fez o caminho inverso para mim: Purificou a minha alma! Grato, Vera.

Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira
Curitiba-Paraná. 

Desinspiração


Vera Albuquerque

Não! Não me ame.
Não me ame por motivos que te fazem achar que me ama.
As razões desse amor não estão em mim.
E também não sei onde estão.
Não me ame. Eu te imploro – NÃO ME AME.
O amor que sente por mim é um fardo, um peso,
um muro no meu caminho que me faz parar.
Como qualquer amor, não liberta.
Então não me ame. Seremos dois não amados, mas livres.
Eu prefiro...mil vezes eu prefiro.
As rédeas brilhantes do amor cegam a visão,
enganam os caminhantes e nos tiram a inspiração.
Quero minha inspiração. Ela não vem desse amor. Ela vem do caos,
Das noites insones, ela vem da falta de amor...mas quando ela vem ela é plena,
Me completa.
Então não me ame.
Mas se ainda assim me amar, não explique, nem justifique e
Por deus – não me culpe.
E por favor não me conte.
Me ame em silencio. É sublime e lírico...e me deixe ir.
Porque por amor algum eu ficarei refém de nada, além de mim.
E entenda enfim, que esse amor não existe.
O amor só existe em si mesmo.
Mas, se por desatenção ainda assim, quiser me amar,
não ponha as razões da alma,
não ponha as razões do corpo.
não fale dos motivos de deus (estes ninguém explica)
não fale dos motivos meus (não existem).
Se quiser me amar, me ame sem motivos.
Não existem motivos no amor.
Os motivos querem explicação.
O amor ama.
Os motivos não.
 

Foto pessoal da autora

Vera Albuquerque: Graduada em Psicologia pela Universidade Tuiuti do Paraná, Especialista em Treinamento e Desenvolvimento de Recursos Humanos, pela FAE, e em Educação Infantil, pela Universidade Tuiuti do Paraná. Desde 2003 atua no ramo editorial, por meio da Editora Bolsa Nacional do Livro, a qual é proprietária. Autora da coleção Será que Isso é Mesmo Brincadeira? com o pseudônimo registrado de Sissina Aurea Brisbin. Em 2009 foi proponente do projeto cultural Mecenato – Bem-vindo À Nova Brasília, A Vida na Ilha do Mel, aprovado na íntegra e concluído dentro do prazo, com o relatório de prestação de contas aprovado sem ressalvas. Em 2013 recebeu o título Mestres do Ano, da Associação de Mulheres e Profissionais, entidade internacional com reconhecimento da ONU, e da qual foi coordenadora de projetos no ano de 2010. Delegada multiárea cultural e parecerista da Fundação Cultural de Curitiba nos projetos de Ciclos literários, rodas de leitura e criação literária.

 

Professora de oratória e treinamentos relacionados a educação. Em 2014 está concluindo a Pós-Graduação da Ibpex em Elaboração de Material Didático, no Centro Universitário Uninter. Mestranda em educação. Autora do livro de poesias  Sozinhes, que fará parte da coleção Edições Marianas.

Esta é mais uma publicação da ACADEMIA POÉTICA BRASILEIRA/Assessoria de Imprensa

MHARIO LINCOLN é Presidente da Academia Poética Brasileira. / Informações para esta coluna: mhariolincolnfs@gmail.com CURITIBA-PARANÁ-BRASIL. Jornalista Profissional/Sindicalizado

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