FACETUBES, textos

O GUARANI DE JOSÉ DE ALENCAR E A INFLUÊNCIA DA LITERATURA GÓTICA EM SUA OBRA

DIONE MARA SOUTO DA ROSA

O GUARANI DE JOSÉ DE ALENCAR E A INFLUÊNCIA DA LITERATURA GÓTICA EM SUA OBRA



RESUMO:

José de Alencar, escritor romântico da primeira fase do romantismo, foi fortemente influenciado pelas narrativas góticas inglesas do século XVIII; entretanto foi classificado apenas de romântico e indianista pela crítica nacional do século XIX e XX, sendo que tal crítica levou em conta apenas as questões de identidade nacional, negligenciando o imaginário e a fantasia, rotulando as obras literárias do período como algo estrangeiro e alheio à realidade brasileira, atendo-se a critérios eminentemente sociológicos e psicológicos, impossibilitando reconhecer o papel da tradição gótica em nossa literatura, não afinados com o programa artístico nacionalista da época. Todavia, graças aos estudos de Daniel Serravalle de Sá no livro Gótico Tropical – o sublime e o demoníaco em O Guarani e Júlio França em Poéticas do Mal – A literatura do Medo no Brasil (1840-1920), no século XXI fica sacramentada a tradição gótica no Brasil, incluindo vários autores nessa perspectiva, notadamente José de Alencar com o romance O Guarani.

PALAVRAS-CHAVE:

José de Alencar. O Guarani. Tradição Gótica no Brasil. Romantismo.

1 INTRODUÇÃO

O Romantismo foi um movimento literário e artístico surgido na Europa do século XVIII estendendo-se até o século XIX. Influenciou a literatura, a pintura, a música e a arquitetura. Opondo-se ao classicismo, racionalismo e iluminismo, esse movimento chegou ao Brasil em finais do século XVIII.

Os românticos objetivavam com suas obras incentivar a exaltação da natureza pátria, o retorno ao passado histórico e a criação do herói nacional. Na literatura europeia, os heróis nacionais eram belos e valentes cavaleiros medievais, enquanto que na brasileira são os índios, igualmente belos, valentes e civilizados.

As principais características do Romantismo, enquanto movimento literário são subjetivismo, supervalorização das emoções pessoais e egocentrismo. O autor cria um universo particular, exaltando a natureza; todavia sobrevêm tédio e frustração, com fuga da realidade, idealização da mulher, da sociedade, do amor e saudade da infância.

Nesse contexto, surge um de seus maiores expoentes, o escritor José Martiniano de Alencar Júnior (1829-1877), que nasceu no sítio Alagadiço Novo, Messejana, Ceará, filho de José Martiniano de Alencar, senador do império, e de Ana Josefina. Formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo em 1850 e tornou-se romancista, dramaturgo, jornalista, advogado e político brasileiro. Está entre os maiores representantes da corrente literária indianista e é considerado o principal romancista brasileiro da primeira fase romântica. Destacou-se na carreira literária com a publicação do romance O Guarani em forma de folhetim, no Diário do Rio de Janeiro, alcançando enorme sucesso e servindo de inspiração ao músico Carlos Gomes para compor a ópera O Guarani. Tal destaque o imortalizou ao ser escolhido, por Machado de Assis, para ocupar a Cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras.

A crítica do século XVIII e XIX enaltece José de Alencar por abordar literatura nacional, menos influenciada pelos colonizadores portugueses. Como resultado, as obras de Alencar demonstram a cultura do povo, a história e uma linguagem inovadora para a época. Entretanto, seus trabalhos apresentam características do movimento seguinte, o realismo, bem como paralelos com a literatura gótica, que iremos tratar amiúde na sequência, traduzindo-se no foco do nosso trabalho. Pretendemos demonstrar, endossado por escritores e grandes nomes da crítica literária, como Daniel Serravalle de Sá e Júlio França, a importância do Gótico na literatura brasileira e como ele influenciou os nossos autores, notadamente José de Alencar.

A leitura de obras estrangeiras teve um grande avanço graças à fuga da família real portuguesa para o Brasil, sendo D. João VI o responsável por inúmeros feitos na metrópole em relação à literatura, como a criação da Biblioteca Real (hoje Biblioteca Nacional), propiciando a chegada de inúmeras obras, trazendo grandes avanços artísticos e culturais para o país.

Em 1822 sobreveio a independência do Brasil por Dom Pedro I, provocando forte sentimento nacionalista, na medida em que o povo brasileiro foi influenciado pelas revoluções que ocorriam na Europa, oportunizando diversas transformações políticas, sociais e econômicas ao ocidente. Entre os principais movimentos revolucionários da época podemos citar a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. Movidos pelos mesmos ideais de mudança, os artistas românticos passaram a mudar a forma de pensar e perceber o mundo, e a arte como um todo.

A chamada Primeira Geração do Romantismo buscava a identificação do país com suas raízes históricas, linguísticas e culturais. O desejo era o de construir uma arte brasileira, livre da influência de Portugal, com sentimento de nacionalidade, resgatando elementos da história do país. Profundamente marcada pelo indianismo, colocando a figura do índio como herói – o representante do povo brasileiro –, a arte literária se destacou na poesia e na prosa.

O movimento romântico no Brasil inicia-se em 1836 com a publicação da obra Suspiros poéticos e saudades por Gonçalves de Magalhães e acaba em 1881 com a publicação do romance realista Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. O Romantismo desejava romper com as barreiras impostas pelo século das luzes, o Iluminismo, que dava vazão, apenas, ao coletivo e social, esquecendo-se do ser individual; assim sendo, tal movimento representou “uma nova realidade artística muito mais condizente com os desejos de liberdade e vazão dos movimentos interiores do espírito humano”, conforme preconiza Márcio Scheel em Poética do Romantismo ao entender que:

[...] o artista romântico ensaia e leva a efeito a ruptura com todo e qualquer modelo de representação que obrigue o indivíduo a alienar-se de sua própria individualidade, em geral consciente e inconscientemente imposta pelo classicismo europeu. (2010, p. 16)

Tal movimento privilegia [...] “o culto do Eu, desenvolvido por Fitche[1] e adotado pelos românticos; problematizará essa visão ideal de natureza, de equilíbrio, de contenção e padronização dos sentimentos, do gosto, da criação” (SCHEEL, 2010, p. 20).

No universo de José de Alencar e do romantismo, vislumbramos que “há mais mistérios entre o céu e na terra do que a vã filosofia dos homens possa imaginar” (Hamlet, William Shakespeare) constatada em suas obras, que denotam a influência estrangeira inspiradora de criatividade e inovação, que buscava construir sua própria história numa literatura em formação.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 GÉRARD GENETTE E O PALIMPSESTO

Todo autor sobre influências; não há nenhum deles que não tenha sido influenciado por alguém ou por alguma obra. É imperioso destacarmos a questão da reescrita como uma forma salutar de transformar leituras em criatividade e riqueza cultural. Não se trata de cópia ou imitação, mas de formas lúdicas de inovar, através da bagagem literária que se adquire com a leitura.

A palavra palimpesto designa um pergaminho ou papiro, cujo texto foi eliminado para permitir a reutilização. Foi uma prática adotada na Idade Média (séculos VII e XII), devido ao elevado custo do pergaminho, mas para Gerard Génette (1930), crítico literário francês e teórico da literatura, tal raspagem foi o pilar de sustentação para elaboração do seu livro Palimpestos: literatura de segunda mão, fazendo uma analogia entre os pergaminhos de couro e a criação literária, a partir das influências sofridas pelos autores em virtude das diversas leituras feitas ao longo da vida. Ele afirmou que [...] “se pode buscar em qualquer obra os ecos parciais, localizados e fugidios de qualquer obra anterior”. (2006, p. 18)

O fenômeno da intertextualidade por Genette elencado faz com que um texto esteja presente em outro, relacionando-se diretamente com o conhecimento de mundo de autores e leitores, assim sendo:

[...] Hipertexto é todo texto derivado de um texto anterior, como exemplo temos Eneida (hipertexto) e Ulisses (hipotexto), porém, o universo do autor é muito mais amplo. A hipertextualidade é um aspecto universal da literalidade: é próprio da obra literária que, em algum grau e segundo as leituras, evoque alguma outra e, nesse sentido, todas as obras são hipertextuais. (GENETTE, 2006, p. 18)

Não foi diferente com nosso autor, José de Alencar, que foi influenciado por outras vertentes literárias.

A crítica do século XXI aponta para a obra de José de Alencar possuir outras influências, não somente romântica ou indianista, mas também gótica.

Nosso trabalho inspirou-se pela pesquisa de dois importantes autores e críticos literários. O primeiro escritor é Daniel Serravalle de Sá, PHD em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Santa Catarina, local onde ministra aulas, e que vem pesquisando as relações entre literatura brasileira e o Gótico, bem como as suas manifestações em diversos contextos culturais em que o livro Gótico Tropicalo sublime e o demoníaco em O Guarani avança no sentido da argumentação que queremos demonstrar. O segundo autor, Júlio França, com Doutorado e pós-doutorado na Brown University, USA, organizador do livro Poéticas do Mal – A Literatura do Medo no Brasil (1840-1920) aborda o estudo da tradição gótica no Brasil e suas principais implicações com o medo artístico.

Gótico Tropical associa o conteúdo do romance de José de Alencar O Guarani (1857) aos principais romances góticos da Inglaterra, elaborados na segunda metade do século XVIII e começo do século XIX. Sabedor da consagração do autor pelo seu cunho indianista, Serravalle de Sá, convida a uma releitura da obra pelo viés gótico, deste modo: “A releitura do romance alencariano, tradicionalmente entendido pela crítica literária como manifestação indianista, utiliza o gótico enquanto desafio epistemológico, grade ou estratégia de leitura (SERRAVALLE DE SÁ, 2010, p. 135).

O próprio Alencar não entendia seu trabalho apenas como indianista ou romântico, por isso ele mesmo deu-lhe o subtítulo de “romance brasileiro”, destacando o caráter da nacionalidade como foco principal. Todavia era um aficionado dos romances europeus e tinha predileção por Honoré de Balzac, Walter Scott, Fenimore Cooper, Chateaubriand e Victor Hugo.

No caso do livro O Guarani, identifica-se correlações com o Gótico europeu:

[...] um repertório de imagens fundadoras e típicas da paisagem gótica – o abismo, a montanha e o castelo, que alçadas à categoria de símbolos, exercem uma função fundamental na medida em que articulam sentidos que aliam cenário natural e palco da ação humana (o solar de Antônio de Moriz) na construção de uma ideia de nação. (SERRAVALLE DE SÁ, 2010, p. 15)

Serravalle de Sá busca “estipular alguns aspectos teóricos e temáticos a partir dos quais uma leitura comparativa pode ser feita”. (2010, p. 20). Ele acredita que é uma tarefa antagônica, dada às discrepâncias culturais, históricas, biológicas, religiosas, geográficas que se interpõem entre os brasileiros e ingleses, tendo em vista as conjunturas religiosas, antirrevolucionárias e de política nacional, fazendo referências às épocas medievais, cujas histórias são ambientadas em castelos e igrejas.

Por outro lado, Alencar “escrevia de um recém-independente país tropical, uma ex-colônia em busca de voz própria, na qual a Idade Média se apresenta (se é que) como fragmento reminiscente da religião católica, e os castelos, enquanto referências físicas, são referências inexistentes” (2010, p. 20).

Parece-nos difícil estabelecer correlações entre literaturas aparentemente tão distintas, mas é justamente esse o foco do trabalho de Serravalle de Sá, observando-se:

[...] nas histórias o uso da imagem de casas e castelos em relação à fantasmagoria de projeções coloniais e nacionais. Isso se deve ao fato de que, na retórica de assombramento do discurso gótico, tais lugares frequentemente ocupam um lugar privilegiado ao servir como espaço representativo da problemática que une ideias de nação e nacionalismo às imagens de fantasmas. (2010, p. 20)

A proposta de Serravalle de Sá vai mais além, pois compara O Guarani de José de Alencar aos romances ingleses no tocante a diversos aspectos, atingindo os antagonistas ou vilões, os quais desafiam a ordem estabelecida. Este autor imagina:

[...] um modelo intertextual entre os antagonistas dos primeiros romances góticos e o fora-da-lei alencariano. Enquanto o fantasma pode ser evocado como um ‘espírito de passagem’, para assim levar a cabo uma comunidade nacional idealizada, há também o discurso nacional que deseja ‘exorcizar’ espectros nefastos. A função dos antagonistas nos romances góticos é dar vazão a um discurso moralizante que com frequência se volta para uma retórica do demoníaco, como forma de expurgar certos elementos do desejo da nação. (2010, p. 21)

Assim sendo, estamos diante de pertinentes comparações pelo autor acerca da obra O Guarani de José de Alencar e as marcas que essa literatura imprimiu nele. O escritor em sua biografia intelectual fornece um depoimento de leitura e que se encontra no livro O Guarani, mencionando um de seus moldes de romance como sendo “mistérios e pavores” e que dizem respeito à estética do sublime, conforme comentários de Serravalle de Sá (2010, p. 23). O autor leu inúmeros romances ingleses, especialmente as novelas góticas do século XIX, que chegou no Brasil “deixando grandes marcas no imaginário de nossos romancistas” (p. 23). Sugere-se que Alencar foi um desses escritores “que teve sua formação literária animada pela leitura dessas obras ‘de carregação’, de romances góticos em particular”, conforme o dizer de Antonio Cândido (1993, p. 21-22-23)

Outro crítico, Alfredo Bosi, comenta a “existência de ‘formas góticas’ na descrição alencariana da natureza, enquanto Wasserman se refere ao seu antagonista Loredano, como um bandido italiano, um vilão tradicionalmente gótico” (BOSI, 2003 apud SERRAVALLE DE SÁ, 2010, p. 21-22).

2.2 O QUE É GÓTICO EM LITERATURA?

É importante conceituar o termo gótico para entender as questões atreladas a essa nomenclatura. O Gótico, enquanto literatura, é considerado subgênero da Literatura Fantástica, sendo que o primeiro abarca o macabro, o vampírico e o sobrenatural e o segundo absorve o sobrenatural, a fantasia, a incerteza do real e do irreal.

A terminologia gótica está presente tanto na arquitetura, pintura, literatura, música, bem como em todos os setores da arte. Ele está muito mais presente no nosso mundo “real” do que se possa imaginar, nas reminiscências dos contos de fada, cujos personagens enfrentam o medo, o horror e o terror. O reino gótico é o reino da noite. Origina-se do vocábulo Goths, que remete aos povos nórdicos, os godos, visigodos e ostrogodos que contribuíram para a queda do Império Romano e devastaram a Europa nos séculos III, IV e V, considerados saqueadores e destruidores. Assim, o termo evoca a escuridão dos longos invernos sombrios e aterrorizantes dos povos nórdicos.

Na arquitetura, a terminologia foi cunhada por Giorgio Vasari (1511-1574, pintor e arquiteto italiano), um dos expoentes do Renascimento, considerando o termo como monstruoso e bárbaro, numa frontal oposição ao estilo românico. Naquele momento, o termo gótico foi considerado pejorativo por se ligar aos povos bárbaros. Antes ainda, Francisco Petrarca, humanista considerado o inventor do soneto, já havia concebido a Idade Média como negra, envolvendo-a em trevas e que foi retomada no século das Luzes, no Iluminismo (LE GOLF, 2014, p. 23), ou seja, desde muito tempo, a palavra gótico se ligou a uma terminologia preconceituosa.

O estilo gótico arquitetônico dos séculos XIII e XIV suplantou o estilo românico, permitindo a entrada da luz e da brancura nas catedrais, permitindo a observação de abóbadas elevadas apoiadas sobre pilastras e feixes de colunas, e uma série de suportes foram constituídos por arcobotantes e contrafortes para equilibrar o peso excessivo delas. Deslumbrantes vitrais e rosáceas iluminavam internamente as catedrais e substituíram as grossas paredes do estilo românico. Torres lanceoladas inspiraram-se nos tetos das casas vikings, bem como nas suas gárgulas – criaturas monstruosas a espantar maus espíritos dentro de moradias –, além de cúpulas e ogivas que deram a expressividade ao gênero arquitetônico desenvolvidas na construção das catedrais. Notáveis exemplos são encontrados na França com as Catedrais de Notre Dame e Saint Dennis, bem como na Alemanha com a Catedral de Colônia (ROSA, 2017, p. 53-57).

A arte gótica passa a ser conhecida e admirada, sendo construídos, igualmente castelos e magníficas fortalezas que resistiram à passagem do tempo. No século XVIII, na Inglaterra, ditos castelos e fortalezas medievais despertaram grande interesse dos escritores europeus, poetas e místicos, os quais se encantaram com tal ambientação, atribuindo-lhes a presença do insano, do terror, do sobrenatural e da morte.

Segundo Maria Conceição Monteiro em seu livro Na aurora da modernidade: a ascensão dos romances gótico e cortês na literatura inglesa:

[...] o principal lócus de ação na ficção gótica é o castelo. Decadente, sombrio e cheio de labirintos, ele é geralmente ligado a outros ambientes medievais, como igrejas, mosteiros, conventos e cemitérios. Esses ambientes, também em ruínas ressoavam o passado feudal associado à barbárie, a superstição e medos. (MONTEIRO, 2004, p. 139)

H.P. Lovecraft fala dos vários expedientes cenográficos adotados como sendo “luzes estranhas, alçapões úmidos, lâmpadas apagadas, embolorados manuscritos ocultos, dobradiças rangentes, cortinados se mexendo, e tudo o mais” (2007, p. 28), bem como “porões labirínticos, torres iluminadas por relâmpagos que rasgam a madrugada negra, os demônios, os monges, os aristocratas, os esqueletos os quais apenas colaborariam para formular a ambientação em que se pretende imergir o leitor” (MONTEIRO, 2004, p. 90).

É o que Julio França comenta no seu artigo Espaços tropicais da literatura do medo (2013) como sendo “traços góticos e decadentistas em narrativas ficcionais brasileiras no início do século XX”, avaliando as características do gótico em matéria de cenário “a construção do locus horribilis é essencial para a produção do medo como efeito de recepção” (2013, p. 1). Assim sendo, o autor afirma que “o espaço é um elemento central nas narrativas do medo. Quando não é personificado e transformado na própria personagem monstruosa, o espaço narrativo é responsável direto por conferir ao ser monstruoso grande parte de seu poder de provocar o medo e as demais emoções correlatas” (FRANÇA, 2017, p. 2). No seu entender está se falando de uma “dimensão geográfica, física, social e mesmo psicológica, na medida em que o locus horribilis pode mesmo ser encarado como um topos da literatura do medo, como pode ser comprovado pelas incontáveis narrativas que tematizam locais mal-assombrados” (2017, p. 2).

No século XVIII o termo “gótico” é reinterpretado positivamente, passando a simbolizar os valores da imaginação e da sensibilidade, vistos como contrários e complementares e não mais como sinônimo de barbárie, atraso e superstição (MONTEIRO, 2004, p. 140).

Assim sendo, o termo ganha novo significado fazendo surgir uma nova forma de arte, denominando-se literatura gótica, que passou a ser desenvolvida na Inglaterra, irradiando-se, posteriormente, para outros países inspirando o Gótico Romântico na França, Inglaterra e Alemanha.

Importante considerar a visão de Jacques le Golf, no livro Em busca da Idade Média: “A Idade Média não é mais, depois do século XVIII, o período incolor que o medievais pensavam viver, mas um período sombrio, enfeixado entre o passado esplendoroso da Antiguidade e o futuro luminoso dos Filósofos”, bem como elucida que a palavra gótico foi reabilitada por Walter Scott e Chateaubriand, pois “a depreciação buscava, claro, atingir a igreja” (2014, p. 59).

No século XIX, surge o Romantismo, numa reação ao Iluminismo, marcado por ideias racionais, científicas e coletivas. Nesse momento, o termo Gótico representa uma parcela da literatura romântica e vinculou-se a uma nova modalidade de poesia e prosa no romantismo europeu, florescendo na França sob a denominação de roman noir, na Inglaterra, sob o termo Gothic Fiction e, na Alemanha, Schauer Roman. Tal inovação foi chamada de “literatura do pesadelo” (MACANDREW, citada em MELTON, 2008, p. 97). A nomenclatura Gótico migrou para o romance ou prosa ficcional, originando a primeira novela gótica, intitulada O Castelo de Otranto (1764), do inglês Horace Walpole, tornando esse autor o “verdadeiro fundador da história de horror literária” (LOVECRAFT, 2007, p. 26). Sublinhe-se que Walpole inovou os cenários com personagens típicos, os quais inspiraram outros autores a recriar o terror.

O romance gótico “representa uma mescla de tradições distintas, uma mistura entre o mitológico e o mimético, entre imaginação e a realidade”. Os autores góticos investiram na criação de imagens obscuras e representações simbólicas (SERRAVALLE DE SÁ, 2010, p. 35-36).

A literatura gótica se utiliza da psicologia do terror (medo, loucura, devassidão, deformação do corpo), do sobrenatural (fantasmas, demônios, monstros), de discussões políticas (monarquia, revoluções), motivos religiosos, concepções estéticas (o sublime, o romantismo) e filosóficas. O gótico passa a ser usado como sinônimo de medieval e obscuro, traduzindo as forças das trevas e do ocultismo. Juntamente com o Romantismo e a literatura fantástica, o gótico ascendeu em meio a profundas transformações políticas e intelectuais à época. Via de regra, a “ação decorre em tempos recuados, notadamente a Idade Média, o que identifica o gótico desde logo com o Romantismo” (MOISÉS, 2013, p. 216).

O Gótico engloba campos diversos como a literatura, a arquitetura, o cinema, a música, as artes visuais e a cibercultura. É uma força multifacetada, multidimensional, um estilo, uma experiência estética, um modo de expressão cultural, que atravessa gêneros, mídias e fronteiras, e está presente nas mais diversas tradições: escocesa, irlandesa, inglesa, japonesa, mexicana, mas nem sempre foi assim. Podemos sublinhar que em seus primórdios, o Gótico não era uma categoria ambivalente como é hoje. Não incluía em seu escopo o oculto, o macabro e o sobrenatural. Não era um gênero imbuído de horror, um subgênero do rock music, um estilo arquitetônico, ou uma subcultura pós-punk. Na acepção primária, o Gótico se referia a um mito, parcialmente forjado das origens do modelo da política inglesa e, por volta de 1660, durante a restauração da monarquia Stuart, o Gótico surgiu como uma forma peculiar da política constitucional, bem como um modo de imaginar a história. Mas o gótico saiu da esfera política para a estética com a primeira novela gótica de Horace Walpole (ROSA, 2017, p. 56).

A literatura de tradição gótica é representada por alguns escritores que se posicionaram contra os valores racionalistas da sociedade burguesa e se identificaram com um ambiente satânico, misterioso, de morte, de sonho e de loucura, criando uma literatura fantasiosa, rompendo com as tradições. Assim ela ganhou adeptos com Edgar Allan Poe, Oscar Wilde, Charles Baudelaire, Stéphane Mallarmé, Mary Shelley, H. P. Lovecraft, Anne Rice, Stephen King e, no Brasil com Álvares de Azevedo, José de Alencar, Cruz e Sousa, Alphonsus Guimaraens, Augusto dos Anjos, Bernardo Guimarães e Junqueira Freire, bem como na atualidade podemos citar os nomes de Zé do Caixão e Raul Seixas.

Na literatura brasileira, a tradição gótica foi explorada por Álvares de Azevedo com a produção gótico-fantástica Noite na taverna e Macário. O que vemos em Álvares de Azevedo – à semelhança com Byron e Hoffmann – “é a recuperação dos elementos góticos ligados à revolta contra a moral burguesa e à rigidez dos costumes”.

O Gótico possui características próprias, conforme nos revela o livro Poéticas do Mal – A Literatura do Medo no Brasil (1840-1920), através do artigo de Marina Sena (2017, p. 101), sob organização de Júlio França:

1. Produção do medo como efeito estético de recepção,

2. A relação fantasmagórica com o passado, que ressurge para assombrar o presente,

3. Caracterização de personagens como monstruosidades, por conta da própria natureza humana ou psicopatias,

4. Desenvolvimento de enredos que exploram, tanto no plano da diegese quanto na recepção, efeitos melodramáticos e emocionais,

5. Utilização contínua de espaços semânticos relacionados à morte, morbidez e degeneração física e mental,

6. Construção de espaços narrativos exóticos ou familiares (loci horribiles),

7. Aprofundamento da psicologia dos personagens, sobretudo em questões relacionadas à sexualidade,

8. Estratégia narrativa da “moldura”, como a exploração labiríntica de tramas dentro de tramas.

Assim uma pergunta surge: quais as relações entre O Guarani de José de Alencar e o Gótico europeu?

2.3 JOSÉ DE ALENCAR: ROMÂNTICO, INDIANISTA OU GÓTICO?

Publicado em 1857, O Guarani se passa em 1604, um período em que Portugal se encontrava sob o domínio espanhol.

Serravalle de Sá assim nos conta sobre o enredo do livro:

[...] após uma mal sucedida investida contra o território islâmico, D.Sebastião, rei de Portugal, morre na batalha de Alcácer-Quibir, deixando o país sem herdeiros imediatos para subir ao trono. Tem início então uma intricada disputa pelo poder entre dois grupos, aqueles que queriam manter uma linhagem portuguesa no trono e aqueles que viam vantagens em se aproximar da Espanha, unificando a península Ibérica. Inconformada com o falecimento do monarca e com os rumos que a sucessão havia tomado, a população portuguesa inventa uma história mística e messiânica segundo a qual D.Sebastião retornaria da África para levar Portugal a novas glórias e conquistas dignas daquelas do passado. Alencar aproveita essa complicação dinástica para instituir o lastro histórico de O Guarani. [...] escritor ressuscita a figura história de D. Antônio de Mariz, fidalgo português ligado à fundação da cidade do Rio e colonizador pioneiro do Brasil.

[...] O personagem de Alencar é um dissidente, o representante da uma antiga monarquia que já não existe em Portugal, pois desapareceu com D.Sebastião na África, mas cujos valores de honra, bravura e heroísmo encontrariam uma espécie de continuidade no Brasil (note-se aqui que o mito fundacional alencariano baseia-se em um “espírito de passado”, o fantasma de D. Sebastião). (2010, p. 26-27)

O Guarani, segundo Serravalle de Sá, evoca o mito do passado, no caso o fantasma de D. Sebastião (morto em batalha) à semelhança da novela gótica O Castelo de Otranto de Horace Walpole em que um fantasma assombra o castelo de Otranto, contando como o príncipe Manfred, indevidamente, apropria-se de um castelo pertencente a sua família, objetivando casar com a mulher que deveria ter se unido a seu filho morto em acidente sobrenatural. Um elmo gigantesco cai misteriosamente do céu esmagando o jovem príncipe Conrad, que se vê sem herdeiros e com uma maldição antiga pairando sobre seu castelo. O pai Manfred passa a assediar a noiva do filho morto, a jovem Isabella e rejeita a filha e a mãe, por ser estéril. A narrativa investe na representação de átrios, pórticos, abóbadas, criptas e galerias, características arquitetônicas que pertencem ao gótico.

O autor Serravalle de Sá compara o enredo da obra de Alencar com as novelas góticas do século XVIII e XIX, afirmando que tal enredo se traduz num tipo de enredo romântico muito comum na imaginação europeia mostrando como “cavaleiros honrados, lindas donzelas, heróis valentes e vilões infames são personagens de muitas histórias” numa analogia com a força do índio brasileiro, com o personagem Peri, a linda donzela Cecília e Loredano, o vilão terrível. O autor analisa que “a inclinação dos vilões para a violência, imoralidade e os maus-humores em geral sustentam a ideia central da construção de alteridade como característica do gótico” (SERRAVALLE DE SÁ, 2010, p.28-80).

O grande vilão de O Guarani é Loredano, que é “desprovido dos atributos tidos como louváveis pela fidalguia; além disso, ele é possuidor de ‘instinto brutal’ irreprimível” (2010, p.100).

Este romance tem como base a história colonial do Brasil, na:

[...] qual o escritor recria a fundação do país, inventando uma ascendência épica para uma nação jovem. Alencar ampara essa concepção na fauna e flora do país, revestindo-a de valores notáveis, baseados numa imaginação e linguagem românticas. (p. 26)

O Guarani é a história de um cerco, no qual a fidalguia portuguesa e a tribo canibal aimoré se destroem mutuamente. Alencar “consegue subverter algumas abordagens da novelística tradicional e popular, introduzindo intersecções no dualismo romântico e criando hibridismos que são estranhos ao romance histórico” (SERRAVALLE DE SÁ, 2010, 29).

Serravalle de Sá estuda os elementos da literatura gótica presentes em O Guarani de José de Alencar ampliando o olhar do leitor para essa influência, na medida em que foi considerado indianista e romântico. O autor pesquisou a vida e obra de José de Alencar intensamente e nos trouxe subsídios convincentes dessa influência. Na biografia intelectual do autor José de Alencar Em como e Porque sou Romancista, escrita em 1873, fornece um depoimento do próprio Alencar, o qual possuía dois modelos de narrativa para sua obra:

[...] Nessa época tinha eu dois moldes para o romance:

Um merencório, cheio de mistérios e pavores, esse, o recebera das novelas que tinha lido. Nele a cena começava nas ruínas de um castelo, amortalhadas pelo baço clarão da lua; ou nalguma capela gótica frouxamente esclarecida pela lâmpada, cuja luz esbatia-se na lousa de uma campa.

O outro molde, que me fora inspirado pela narrativa pitoresca de meu amigo Sombra, era risonho, loução, brincando, recendendo graças e perfumes agrestes. A cena abria-se em uma campina, marchetada de flores, e regada pelo sussurrante arroio que a bordava de recamos cristalinos. (ALENCAR, apud SERRAVALLE DE SÁ, 2010, p. 23)

A literatura gótica possui elementos caracterizadores, conforme citamos. Vejamos o comportamento dos elementos ou caracterizadores góticos em O Guarani de José de Alencar.

2.4 NATUREZA E O SUBLIME NA OBRA DE ALENCAR

No século XIX, na Europa, as pessoas passaram a idealizar ou romantizar a natureza quando foram morar nas cidades e, de modo especial, a Idade Média.

No caso dos romances góticos, as paisagens externas incorporavam visões sublimes, ou seja, o arrebatamento pelo poder e pela grandiosidade dos elementos naturais:

[...] A natureza nos romances góticos frequentemente se reveste de certo terror cujo efeito é alcançado por uma retórica do excesso, uma linguagem hiperbólica com ênfase adjetival que torna o cenário grandioso e intimidante. Isso se traduz em cenários com vastas paisagens, montanhas, abismos, vulcões, tempestades, mares revoltos, cachoeiras trovejantes, florestas escuras nas quais bandidos cruéis espreitam e as heroínas perseguidas temem (e os leitores desejam) que o pior lhes aconteça. (SERRAVALLE DE SÁ, 2010, p. 38)

Convencionou-se chamar-se “locus amoenus essas paisagens idealizadas, equilibradas e tranquilas” (2010, p. 37), assim como:

[...] a casa e a cidade tornam-se topoi[2] recorrentes na literatura gótica; por outro lado a realização da poética gótica em países que não possuem o passado medieval europeu como pano de fundo para suas narrativas, como o Brasil e os Estados Unidos, cria novos loci[3] de horror e ansiedade como as plantations, a casa-grande, o sertão nordestino, entre outros”. (FRANÇA, 2017, p. 116).

Ditos cenários reveladores da natureza em todo o seu esplendor e assombro remontam ao espaço gótico, que será “sempre aquele que irá promover as inquietações” (2010, p. 38).

Curioso perceber-se que nesse espaço:

[...] entram em cena as transgressões sociais em suas formas hediondas: parricídio, fratricídio, sodomia, torturas, assuntos pelo qual a Europa do século XVIII parecia sentir atração inconfessável, e experimentava um estranho prazer em vê-los insinuados ou realizados, ainda que somente na imaginação”. (SERRAVALLE DE SÁ, 2010, p. 38)

José de Alencar, por certo está influenciado pela estética burkeana[4] do sublime, que é uma das fontes de encantamento:

[...] inicia o romance com uma passagem que se assemelha muito às convenções góticas de paisagem e natureza, cujos significados ele então renegocia com o modelo europeu. O castelo europeu vira uma mansão portuguesa no meio da floresta brasileira, um lugar de projeções coloniais, nacionais e de espectros. (SERRAVALLE DE SÁ, 2010, p. 26)

Ou seja “‘mistérios e pavores’ dizendo respeito à estética do sublime, cuja quintessência literária chama de gótico, ou seja, aspectos inquietantes da cultura e da história sendo ordenados ou desafiados naquela natureza”. (2010, p. 23). Desse modo, tal arrebatamento nos remete ao sublime e ao que ele significa:

[...] O sublime é o efeito condutor do gótico, o qual se manifesta em momentos de irracionalismo e tensão, figurando a antecipação de agouros, lutas e conflitos em geral. Intercalar momentos de relaxamento e tensão narrativa contribui para tornar a leitura mais estimulante, pois prende a atenção do leitor ao criar um suspense que mantém as expectativas altas até o final. Assim é o efeito narrativo que se dá em O Guarani, revezando entre um “molde” e outro, criando sequências de clímaces narrativos, mas evitando os desfechos abruptos. (p. 23).

Tradicionalmente, a crítica literária, tende a destacar em O Guarani:

[...] as suas características épicas, a projeção de valores grandiosos na natureza brasileira, o rousseaunismo e o nacionalismo de Alencar”. (SERRAVALLE DE SÁ, 2010, p. 106).

Na obra de José de Alencar, as complexidades presentes em O Guarani são:

[...] causadas pela proliferação das linhas narrativas (forma) e instauradas pela articulação entre aspectos pitorescos e sublimes (efeito) constituem uma proposta narrativa amplamente utilizada pelo romance gótico inglês, cujo resultado ficou conhecido como enredo labiríntico. (2010, p.23)

Alencar investiu no “discurso do ‘sublime’ e numa linguagem hiperbólica, com intuito de engrandecer os elementos naturais”. (SERRAVALLE DE SÁ, 2010, p. 24). O autor enriquece suas descrições, tendo em vista que:

[...] trabalha com a fragmentação da linha narrativa e com a interpolação de subenredos ou metanarrativas, as quais agregam informações extras à ação principal ao contar as histórias individuais dos personagens. (2010, p. 23).

Da observação de sua narrativa com os romances góticos dos séculos XVIII e XIX, Alencar elucida na sua narrativa que “a floresta é povoada por animas ‘fantásticos’ e plantas ‘exóticas’ e o índio Peri se assemelha a um cavaleiro medieval”. (p. 111)

Prossigamos elucidando outros elementos góticos na obra O Guarani.

2.5 CONOTAÇÕES POLÍTICAS E AS RELAÇÕES COM “MONTANHA, ABISMO E CASTELO”

Característica marcante no romance gótico são as conotações políticas. Logo “escritores do século XVIII estavam seguros de que os romances góticos representavam um tipo de manifestação política” (SERRAVALLE DE SÁ 2010, p.66).

Observe-se que:

[...] em tais textos, devido ao momento histórico, no qual a Inglaterra se firmava como potência mundial, esse tipo de sugestão teria a função não só de instigar o desejo de conquista, mas de justificar a ocupação de territórios estrangeiros sob o pretexto de levar o progresso inglês para os cantos mais remotos do mundo. (SERRAVALLE DE SÁ, 2010, p. 67).

Um dos mais importantes escritores do século XVIII na literatura gótica inglesa foi uma mulher: Ann Radcliffe, a grande dama da literatura gótica, tornou-se a mais popular de sua época, atingindo a “excelência de suas descrições de paisagens como também nas suas caracterizações de vilões, os suspeitos violadores da superfície civilizada da vida inglesa”. Assim sendo “as descrições da natureza em Ann Radcliffe são exemplares do que há de mais fino e representativo do gótico inglês” (SERRAVALLE DE SÁ, 2010, p. 76).

O emprego que Ann Radcliffe faz das três imagens (montanha, abismo e castelo) está afinado com uma certa disposição filosófica, mais sombria e descrente do pensamento aristotélico, que emergiu na Europa no século XVIII, como nos fala Serravalle de Sá (2010, p. 67), na medida em que:

[...] difundidos pelo romance gótico e depois revisitados pelo romance histórico o abismo, a montanha e o castelo como características de paisagens remotas, foram imagens frequentes na literatura do século XVIII e XIX. E uma fonte de perigo iminente, refletindo a possibilidade de se estar caminhando para a destruição (2010, p. 65)

Outrossim, a montanha e o castelo:

[...] emergem como um lugar ambivalente, denotando refúgio ou um santuário nas montanhas, mas também poderia ser um símbolo de passado nobre, como características de paisagens remotas, foram imagens frequentes na literatura do século XIX e XX, encerrando associações de poder, para demonstrar como símbolos estéticos trazem valores atrelados a si. (p. 65-69)

Assim sendo, a trilogia abismo, montanha e castelo são “fortes símbolos da literatura gótica, pois são características de paisagens remotas e muito usadas na literatura do século XVIII e XIX” (2010, p. 66-69). Tais imagens traduzem-se no:

[...] aspecto do sublime e assumiram diversos aspectos além de castelos, como igrejas, fortificações e monastérios evocando um mau presságio quando essas imagens se traduzem em perigo, levando ao caos e à destruição. (SERRAVALLE DE SÁ, 2010, p. 66)

Nesse enfoque, “a montanha, o abismo e o castelo são igualmente imagens emblemáticas que encerram associações de poder, para demonstrar como símbolos estéticos trazem valores atrelados a si representando identidade nacional e política” (2010, p. 67).

Interessante falar sobre o significado do gótico relacionado às questões políticas em que:

[...] a crítica literária já estabeleceu, plausivelmente, um desenvolvimento do discurso gótico setecentista, relacionando-o à mudanças no poder imperial, à descrença nos mitos de progresso, à degeneração cultural das instituições monárquicas e clericais e à diluição étnica. (2010, p. 24)

Desse modo, o gótico também significou mudanças revolucionárias no modo de agir e pensar das pessoas do século XIX.

Nos países europeus uma tradição gótica se instalou, dados aos diversos elementos já elencados nessa literatura, mas e, no Brasil, influenciado pela literatura que chegou da Europa, como se portou?

3 TRADIÇÃO GÓTICA NO BRASIL

O Gótico no Brasil foi renegado pela crítica brasileira por muito tempo que “buscou o apagamento da literatura do medo no Brasil, tendo em vista que foi afirmado que a literatura gótica possuiria temas e ambientações estranhos à cultura e ao território brasileiro – e, por conseguinte, seu influxo sobre a literatura nacional seria, quando muito, contingencial” (FRANÇA, 2017, p. 26).

Uma das razões para esse apagamento em nossa tradição literária estaria:

[...] no fato que a crítica literária brasileira dos séculos XIX e XX ter privilegiado o caráter documental da literatura em detrimento do imaginativo, favorecendo obras realistas e aquelas explícita e diretamente relacionadas às questões de identidade nacional. (FRANÇA, 2017, p. 27)

Verdadeiramente as narrativas góticas foram renegadas pela crítica, significando distúrbios mentais e do meio social. O que a crítica atual contraria frontalmente, pois é preciso reconhecer que:

[...] a obra literária é um artefato produtor de efeitos sensoriais de recepção, que daria atenção a um conjunto de narrativas que se caracteriza justamente por produzir o horror, o terror e a repulsa como prazer estético”. (FRANÇA, 2017, p, 30)

Assim sendo, o fato de não ter sido privilegiada pela crítica literária, não significa que não houve tradição gótica no nosso país. Não existiu nos mesmos moldes do que ocorreu na Europa e Estados Unidos, mas existiu no Brasil com muita criatividade e imaginação. Mesmo que temas, enredos e narrativas não tivessem o condão de evocar o Gótico, já o teríamos inserido na nossa literatura através do folclore brasileiro, rico em mitos e lendas.

A reflexão de Murillo Gabrielli, citado por Júlio França, sobre a “obstrução à literatura fantástica no Brasil”, inclina-se para o processo de marginalização do Gótico em nossa literatura sob a:

[...] hegemonia de uma poética da certeza no interior do nosso sistema brasileiro teria imposto dificuldades às narrativas ficcionais que não se alinhassem à compreensão da literatura como ‘veículo de certezas doutrinárias. (GABRIELLI, apud FRANÇA, 2017, p. 28)

José de Alencar, segundo Serravalle de Sá (2019, p. 113), “não pretendia se submeter à matriz europeia (tampouco pretende esconder seus modelos), assim sendo as referências textuais constituem um estratagema para citar a tradição estrangeira” com muita originalidade e criatividade. E a partir de seus estudos, propõe um pensamento que poderia ter sido usado por José de Alencar:

[...] se eles (europeus) têm castelos, nós (brasileiros) temos árvores fortes e ancestrais, se eles possuem templos, nosso santuário é a floresta, se eles têm cavaleiros em armaduras brilhantes, temos índios habilidosos adornados com “as lindas penas das nossas aves”’. (SERRAVALLE DE SÁ, 2010, p. 112-113)

A compreensão de Alencar sobre nacionalidade funcionava “como nos romances góticos, e ainda em muitos romances românticos europeus, dentro da dicotomia simplista nacional/estrangeiro” (2010, p. 114).

Assim sendo, o gótico foi desconsiderado, na medida em que a crítica literária da época:

[...] tomava-o apenas como um estilo de época da literatura do século XVIII. Ignorava-se que a narrativa gótica consolida uma linguagem artística em constante renovação, resultante de uma visão de mundo plenamente afinada com os desafios do mundo moderno. (p.112)

Outrossim, tal equívoco ou desconsideração está sendo resgatado pelos estudos de escritores e críticos como Daniel Serravalle de Sá e Júlio França.

A literatura gótica na obra de Alencar se fez presente de modo muito significativo, pois além do reconhecimento indianista, nacionalista e romântico, introduziu os elementos caracterizadores do Gótico, numa exuberância digna dele mesmo como grande escritor.

Não foi somente José de Alencar ou Álvares de Azevedo que trouxeram os elementos e características góticas, sendo que diversos autores introduziram formas góticas na literatura do medo no Brasil.

Júlio França discorreu sobre os temas que estiveram presentes na literatura do século XIX, avançando nos séculos seguintes:

1. Temática da escravidão e racismo. As questões humanas, culturais e políticas relacionadas ao escravismo funcionaram como moldura e motivo para narrativas que exploravam o terror e a violência produzidos pelo racismo e pela estrutura social escravocrata. Ex: Vítimas algozes: quadros da escravidão de Joaquim Manuel de Macedo (1869). Foi um panfleto abolicionista que afirmava que a escravidão cria monstros, bem como na obra de Afonso Arinos, Coelho Neto, Medeiros e Albuquerque, Monteiro Lobato, dentre outros.

2. Gótico-Naturalismo: Ao absorver de modo errático as ideias de seleção de Darwin e o determinismo social de Taine, os escritores naturalistas deram vida a uma galeria de personagens descritas como monstruosas por causa de seus instintos bestiais, de patologias neurológicas, ou de condicionamentos sociais produzidos pelos loci horribiles em que habitavam. Ex: ambientes de seca e fome em Os Brilhantes (1895) e da epidemia de cólera em Violação (1899) de Rodolfo Teófilo apresentam narrativas com fortes tintas góticas.

3. Medo e Decadência: Apresenta o desencanto com os rumos da modernidade. No plano filosófico é a recusa ao cientificismo, no plano estético é a recusa das tendências realistas; entretanto foram os autores contaminados pelas “bizarrias e anormalidades psicológicas” (PRAZ, apud FRANÇA, 2017, p. 32), bem como questões ligadas ao sexo e perversões humanas. Ex: Dentro da noite (1910) de João do Rio.

4. Literatura do crime: São estreitas as relações entre Gótico e a literatura do crime no Brasil, que existem entre jornalismo e ficção. A tradição gótica tem suas raízes fincadas tanto nas origens do romance policial quanto no nascimento das narrativas detetivescas. Ex: Januário Garcia, ou Sete Orelhas (184?), de Joaquim Norberto; O Cabeleira (1876) de Franklin Távora, Memórias de um rato de hotel (1912) de João do Rio, inspirados na investigação racional de Edgar Allan Poe.

5. Romances de sensação: Mistura de narrativa gótica, ficção de crime e os romances de sensação com “dramas emocionantes, conflituosos, repletos de mortes violentas, crimes horripilantes e acontecimentos imprevisíveis”. Ex: A emparedada da Rua Nova, de Carneiro Vilela.

6. Os regionalismos: Histórias de fantasmas que se mesclam com o “causo popular”. Ex: Inglês de Souza, Hugo Carvalho Ramos e Afonso Arinos, Euclides da Cunha que se valem de recursos góticos para dar conta do horror da seca, da fome e da violência no sertão. Tem-se o romance psicológico, ainda, como Cornélio Pena e Lúcio Cardoso em obras como Fronteira (1935) e Crônica da casa assassinada (1959)” (FRANÇA, 2017, p. 32).

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A obra O Guarani de José de Alencar possui linguagem refinada e alinhada com o romantismo e indianismo. Citar aspectos ligados ao Gótico em seu trabalho reconhecem não mais um rótulo; antes, certo acréscimo, algo mais a ser apreciado e motivo de aplausos em seu grandioso trabalho literário.

As novelas góticas que chegaram ao Brasil no século XVIII e encantaram os autores brasileiros, influenciando-os sobremaneira, encontram eco na afirmação que não se deve pensar numa obra como original, mas originária, no dizer de Gérard Genette em seu Palimpsesto: literatura de segunda mão, na medida em que todos os autores sofrem influências de seus antecessores e, com elas elaboram obras ainda mais extraordinárias.

Entendemos que as influências literárias externas sobre um povo não podem ser consideradas como manifestações de doenças mentais ou imitação pura e simples de modelos estrangeiros, como fez crer a crítica dos séculos XIX e XX acerca das obras produzidas sob a influência do Gótico, a qual se enveredou pelo “alinhamento com projetos políticos nacionalistas, quando não com sentimentos patrióticos” (SOUZA, 2014, p. 21).

A crítica atual entende ter havido um critério personalíssimo a esse respeito, desconsiderando o imaginário e fantasioso encontrado em diversas obras, como é o caso de O Guarani. Salutar buscar-se identidade nacional, especialmente numa literatura em formação, mas renegar influências estrangeiras, por desconhecimento do projeto estético a elas atrelado, é discriminar e desconsiderar o trabalho dos autores da época. Entretanto se os autores dos séculos XIX e XX nada tivessem composto sob a égide desse projeto teríamos “temáticas, motivos, enredos, personagens, construções de espaços narrativos e afins estão presentes na nossa literatura e não levaram o gênero gótico no nome, todavia nem por isso deixaram de sê-lo” (SERRAVALLE DE SÁ, 2010, p. 27).

Críticos atuais lutam para que a literatura brasileira produzida naquela época e sob o molde “Gótico” não seja fruto de discriminação, cerceamento de criatividade, ou rotulação ligada a um só gênero, mas que seja vista numa totalidade criativa; concluindo-se, então que “tais obras, embora não afinadas com o programa artístico nacionalista romântico, não eram, necessariamente, alienígenas e alienadas, mas se constituíram a partir de outras convenções literárias” (2017, p. 30).

Sobre tal marginalização, cite-se a recepção da obra Noite na taverna de Álvares de Azevedo, lúgubre prosa ficcional, um romance contendo cinco contos ao sabor do horror e do monstruoso, aventando crimes de uma sociedade burguesa, que pretendia esconder seus defeitos. Questionador como todo romântico, Azevedo subverteu a ordem instaurada e mostrou o contexto social existente no século XIX, contraditando a falsa moral burguesa. Mesmo a sua obra, considerando-o um dos precursores do gótico brasileiro sofreu ferinas críticas e o chamaram de imitador dos modelos literários europeus. Associaram sua obra a “sua personalidade melancólica e alienação dos temas pungentes da realidade nacional” (FRANÇA, 2017, p. 29). É sabido que atualmente autor e sua obra são coisas distintas.

José de Alencar escreveu sob influência do Gótico inglês, não nos resta dúvida, tendo em vista que suas descrições do “sublime” evocando nossas matas, índios, flora e fauna estão associadas ao “abismo, montanha e castelo” do gótico inglês, cujos símbolos se correlacionam.

Não foi somente José de Alencar ou Álvares de Azevedo que se influenciaram pela estética gótica do romantismo europeu; tivemos inúmeros autores como Joaquim José de Macedo com o poema A nebulosa (1857), Basílio da Gama com o poema O Uraguai (1769), bem como Bernardo Guimarães com a obra A ilha maldita (1879).

No que tange a nossa tradição gótica pode-se afirmar que não houve tradição gótica como na Inglaterra, França e Alemanha na forma de um Romantismo Gótico, mas estão presentes os tais elementos em nossa literatura, através do folclore, lendas, mitos e costumes locais, que possuem parentesco com o sobrenatural e, por isso, podem ser relacionados a ele. É paradoxal que não se acredite no que está presente nas nossas raízes culturais. Nosso folclore está recheado de elementos sobrenaturais e fantásticos, os quais, mesmo que não tivessem existido tais obras teriam sido responsáveis pela existência desse subgênero.

A literatura gótica no Brasil está bem delineada pela crítica atual, mas ainda se tem muito a elucidar nessa questão, vez que o próprio José de Alencar teve outros romances com tais influências como O Tronco do Ipê. É um tema que não se calará tão cedo, tendo em vista que o gosto pelo horror é algo contraditório, pois como é possível que nos sintamos atraídos pelo medo?

Segundo Noel Carroll, trata-se da Filosofia do horror ou o paradoxo do coração, o autor realça que aquilo que nos causa medo, ao mesmo tempo nos eleva e fascina. Assim sendo narrativas em que prevalecem o e terror e horror góticos são parábolas existenciais acerca do homem jogado no mundo como um sofredor, que se traduz no marginalizado e no incompreendido, o que no fundo muitas pessoas o são, por isso a identificação com os monstros. Somos atraídos pelo que nos causa curiosidade e medo, bem como pelo que repugna; todavia, encanta. As pessoas gostam do terror e do horror, desde que se tenha, no dizer de Carroll “uma distância segura desse mesmo perigo”.

O medo para o autor H.P. Lovecraft (2008) “é a emoção mais antiga do mundo”, pois gela a alma e arrepia os cabelos. Essa emoção nos leva a questionar a nossa sombra, arquétipo relacionado ao que tememos, não aceitamos ou precisamos mudar em nós, e que foi estudado por Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, fundador da Psicologia Analítica.

A literatura gótica também foi chamada de literatura de sombras, privilegiando o terror e o horror. Estudar sobre esses assuntos pode lançar luzes sobre nossa evolução como seres humanos e como lidamos com os nossos instintos e emoções mais sombrias.

5 REFERÊNCIAS BIBLIGRÁFICAS

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. 4ª Ed. São Paulo: Ática, 1974.

CAMPOS, Karine M. Cultura do travesseiro. Disponível em: https://culturadetravesseiro.blogspot.com/2011/05/palimpsestogerardgenette.html. Acesso em 09 set.2019.

CÂNDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Editora Itaiaia, 1993.

CARROL, Noel. A filosofia do horror ou paradoxos do coração. Tradução de Roberto Leal Ferreira. Campinas: Papirus Editora, 1999.

FRANÇA, Júlio. Poéticas do Mal. Rio de Janeiro: Editora Bonecker, 2017.

FRANÇA, Júlio; COLUCCI, Luciana. As nuances do Gótico: do Setecentos à atualidade. Rio de Janeiro: Bonecker, 2017.

_____. Espaços tropicais da literatura do medo: traços góticos e decadentistas em narrativas ficcionais brasileiras do início do século XX, em XIII Congresso Internacional ABRALIC, Campina Grande, PB, 2013.

GENETTE, Gérard. Palimpsestos: a literatura de segunda mão. Trad. Cibele Braga et al. Belo horizonte: Edições Viva Voz, 2010.

JUS BRASIL Comunicação Docente e o uso dos topoi.Disponível em: https://jus.com.br/artigos/45/comunicacao-docente-e-o-uso-dos-topoi cesso em 22.out 2019.

LE GOLF, Jacques. Em busca da Idade Média. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.

LOVECRAFT, H.P. O horror sobrenatural em literatura. São Paulo: Iluminuras, 2008.

MELTON, J. Enciclopédia dos vampiros. São Paulo: Mbooks, 2002.

MOISÉS, M. A criação literária poesia e prosa. São Paulo: Cultrix, 2012.

_____. Dicionário de Termos Literários. São Paulo: Editora Cultrix, 2013.

MONTEIRO, M. Na aurora da modernidade: a ascensão dos romances gótico e cortês na literatura inglesa. Rio de Janeiro: Editora Caetés, 2004.

ROSA, Dione M.S. A prosa gótica de Álvares de Azevedo em Noite na taverna. Curitiba: Editora Prismas, 2017.

SCHEEL, Márcio. Poética do Romantismo. São Paulo: Editora UNESP, 2010.

SERRAVALLE DE SÁ, Daniel. Gótico Tropical: o sublime e o demoníaco em O Guarani. Salvador: Editora EDUFRA, 2010.

SOUZA, Roberto A. História da Literatura. Trajetória, fundamentos, problemas. São Paulo: Editora Realizações, 2014.

TODA MATÉRIA. Romantismo. Disponível em https://www.todamateria.com.br/romantismo-caracteristicas-e-contexto-historico/. Acesso em 02 set.2019.

[1] Johann Gottlieb Fichte foi um filósofo alemão pós-kantiano e o primeiro dos grandes idealistas alemães. Sua obra é considerada como uma ponte entre as ideias de Kant e as de Hegel. Assim como Descartes e Kant, Fichte, interessou-se pelo problema da subjetividade e da consciência. [2] Topoi vem de topos que significa lugar comum. É a forma de argumentação a partir de lugares comuns. Na retórica grega clássica e latina refere-se a um método para desenvolver argumentos. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/45/comunicacao-docente-e-o-uso-dos-topoi. Acesso em 22.out 2019. [3] Loci é o plural de locus. O mesmo que locais, locos, lugares. Disponível em https://www.dicio.com.br/loci/. Acesso em 22. out.2019. [4] BURKE, Edmund estabelece uma categoria de apreciação estética paralela ao “belo”, ligando os produtos do conhecimento humano e os objetos de arte à natureza (vastidão, magnificência e obscuridade).


Notas de Rodapé:

[Página 04] (1)Johann Gottlieb Fichte foi um filósofo alemão pós-kantiano e o primeiro dos grandes idealistas alemães. Sua obra é considerada como uma ponte entre as ideias de Kant e as de Hegel. Assim como Descartes e Kant, Fichte, interessou-se pelo problema da subjetividade e da consciência.


Página 14. [2] Topoi vem de topos que significa lugar comum. É a forma de argumentação a partir de lugares comuns. Na retórica grega clássica e latina refere-se a um método para desenvolver argumentos. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/45/comunicacao-docente-e-o-uso-dos-topoi. Acesso em 22.out 2019.

Página 14. [3] Loci é o plural de locus. O mesmo que locais, locos, lugares. Disponível em https://www.dicio.com.br/loci/. Acesso em 22. out.2019.


Página 15. [4] BURKE, Edmund estabelece uma categoria de apreciação estética paralela ao “belo”, ligando os produtos do conhecimento humano e os objetos de arte à natureza (vastidão, magnificência e obscuridade).





7 visualizações
Esta é mais uma publicação da ACADEMIA POÉTICA BRASILEIRA/Assessoria de Imprensa

MHARIO LINCOLN é Presidente da Academia Poética Brasileira. / Informações para esta coluna: mhariolincolnfs@gmail.com CURITIBA-PARANÁ-BRASIL. Jornalista Profissional/Sindicalizado

FACE: https://https://www.facebook.com/MharioLincolnFS - www.twitter.com/mhariolincoln