O escritor Jozias Benedicto e o arquiteto Miguel Capanema

O autor, Jozias Benedicto com as artistas Milena Soares, Marcella Araújo e Rosana Diuana e o professor Cris Muniz. Fantástico.

Jozias Benedicto, dois poemas do livro “Erotiscências & embustes”, Editora Urutau, SP, 2019

 

Valongo I (Trem da Central)

 

Do alto, olho o mar — doido no espaço

brinca o luar —, a manhã se faz dia

trazendo pessoas e seu fracasso

apertadas suadas em jaula fria.

 

Trem da Central, novo navio negreiro.

Cidade que engole desejo e sonho,

vomita mortos-vivos no atoleiro,

que ali se estreitam num abraço insano.

 

Século XXI, ainda escravos

sonolentos, nos trens, batendo ponto.

Valongo, Centro do Rio, mercado

 

de corpos e almas mudos, sem voz

para resistir, inútil confronto.

Hoje os escravos somos todos nós.

 

(Poema de 2017, da série dos sonetos sobre escravidões contemporâneas, inspirados em O navio negreiro, de Castro Alves.)

As reticências do corpo

 

Félix Alberto Lima

 

Jozias Benedicto chega pisando firme no terreno da poesia como um astuto veterano de guerra, cabelos grisalhos e pele calejada por tumultos psicológicos e recorrentes batalhas interiores, sem vencedores ou vencidos. Com seu fuzil azul imaginário, exorta versos na direção de almas que se desassossegam facilmente no redemoinho das paisagens urbanas – de imagens noturnas, algumas delas deliberadamente nubladas; outras, esquartejadas no centro da página.

 

Erotiscências & embustes, o livro de estreia na poesia de Jozias Benedicto, é a inevitável dilatação sonora de seu extenso e premiado inventário de contos. Os poemas aqui reunidos são quase contos quase prontos, quase coitos. Meio confessionais, meio fotográficos, feito bichos-grilos cantantes e cortantes.

 

A poesia de Jozias Benedicto não é uma receita de erotismo urbano, da posologia de prateleira do sex-shop. É o corte não-linear na própria carne do autor. É o corpo em movimento, inquieto, agressivo, trágico, lascivo. Erotiscências & embustes é também o impulso político antipanfletário que dialoga com diferentes armadilhas da literatura, inclusive com a poesia.

 

O corpo, para o poeta, é quase um cão sem dono, um pedinte no meio da alegoria das ruas, porque, como consta na alquimia do verso, “meia vida nunca”. A poesia de Jozias Benedicto não tem pudor, mas pendor por aquilo que é intenso: às vezes doloroso, de uma ressaca bruta e amargurada; noutras vezes é puro desleixo, sem complexo de culpa, desaforado, como na caricatura de um Gonçalves Dias nu pelo desvão da cozinha.

 

Jozias Benedicto é filho desses purgatórios solares da beleza e do caos. Sem cerimônia, desembarca neste livro com seus poemas de armadura e purpurina. Como um trovador andrógino, consegue espremer o suor que escorre da alma que há no sexo. Qual Lou Reed em Walk on the Wild Side, prefere pisar o lado selvagem da calçada. A poesia agradece.    

 

 Félix Alberto Lima é escritor e jornalista, membro da Academia Maranhense de Letras.

Jozias Benedicto com o editor do livro, o poeta Tiago Fabris Rendelli

Esta é mais uma publicação da ACADEMIA POÉTICA BRASILEIRA/Assessoria de Imprensa

MHARIO LINCOLN é Presidente da Academia Poética Brasileira. / Informações para esta coluna: mhariolincolnfs@gmail.com CURITIBA-PARANÁ-BRASIL. Jornalista Profissional/Sindicalizado

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