Entrevista exclusiva com Anaíra Mafeoli

1-MHARIO LINCOLN - Sua poesia é densa. Às vezes lírica, outras vezes amarga. Como seria o verdadeiro equilíbrio de sua poesia? 

ANAÍRA MAFEOLI: Tudo o que escrevo vem do Universo, meus olhos estão voltados às reflexões e aos questionamentos e críticas àqueles que sabem tanto quanto eu e nada fazem, não é um tapinha nas costas, mas uma chacoalhada para acordar, pois todos tem responsabilidades do que o mundo está se tornando. O equilíbrio de minha poesia depende do equilíbrio do mundo e atualmente é impossível, pois o Universo está em trabalho de parto, contrações intensas para nascer algo novo.Falo com o coração das pessoas, porque o Universo me deu as chaves, por isso é surpreendente.

2 -MHARIO LINCOLN: Muitos poetas do nosso tempo e de tempos idos acabaram por trazer temas sócio-políticos para suas poesias. Em alguns casos, houve repercussão e mudança. Em outros, o reclame e o protesto ficaram apenas no tempo e marcaram uma época. Você acredita que o poeta ao envolver-se diretamente com temas políticos contribui para mudança dos acontecimentos ou apenas fortalece sua produção lírica? 

ANAÍRA MAFEOLI: Nina Simone diz: “como você pode ser um artista e não refletir os tempos?” O verdadeiro artista não é o que está na mídia, eles tem um roteiro a seguir e o seu emprego depende de seguir o roteiro, assim controlando a sociedade. Os artistas que eles não conseguem controlar não alcançava créditos nem espaço, com a Revolução da Informação isso mudou, porque qualquer pessoa pode mostrar sua arte nas Redes Sociais e no Youtube e a sociedade em geral é que vai decidir, mudou de mão quem decide, agora a mídia está acompanhando quem faz sucesso, para contratar. A arte é o grande calcanhar de Aquiles dos governantes, porque ela tem o dom de mover multidões, por isso eles tem uma grande parcela de artistas que falam em prol deles.

3 - MHARIO LINCOLN: O que mais tocou em você ao construir seu grupo artístico e literário e como andam as coisas para o lado do grupo? 
ANAÍRA MAFEOLI: O que mais me tocou foi encontrar os Unicórnios, seres sagrados de luz, que vieram trazer uma mensagem de evolução ao mundo. Existe um tempo determinado para tudo acontecer, são seres de coração azul. Todas as pessoas trazem em seus corações informações de evolução, porque o caminho de cada um é único, mas elas fecharam o acesso, é como se tivessem perdido a chave. Em breve será mostrado o trabalho e as sementes se espalharão, porque discursos são só discursos, mostraremos ações que qualquer pessoa pode fazer, porque a evolução se inicia de dentro pra fora, você tem que sentir e a transformação é natural. 

4 - MHARIO LINCOLN: Você pode citar uma das passagens mais emocionantes em sua produção literária, aquela que quando você voltou a ler se emocionou com o que fez? 
ANAÍRA MAFEOLI: A publicação do meu primeiro livro, (A (In)Utilidade das Palavras) com certeza, porque eu escrevia desde os 14 anos e meus textos ficaram guardados por 21 anos, foi uma emoção imensa reler tudo e escolher os que seriam publicados. E eles são tão atuais, as mesmas incomodações que eu tinha aos 17 anos, vejo hoje nos adolescentes, isso vai ecoar no Universo por muito tempo. 
Meu filho Vitor Felix na época com 11 anos trabalhar na capa e ilustrações do meu segundo livro (Desmentindo Todas as Mentiras dos Homens) com o Artista Plástico Pablo Aquino. Escrever poesias encomendadas para presentear alguém e me disseram que eu expus exatamente o que queriam, como se eu lesse suas almas. Isso foi um marco pra mim e aconteceu diversas vezes. 

5 - MHARIO LINCOLN: Quais os ideias de um poeta quando ele escreve sobre a PAZ? 
ANAÍRA MAFEOLI: A Paz é uma utopia, mas voar na época de Santos Dumont também era uma utopia e hoje realidade, por isso insisto em minhas utopias,  ela dá vida aos pensamentos de todas as pessoas, porque paz é um desejo de todos, mesmo daqueles que estão a serviço do terrorismo, na verdade ele está sentindo tanta dor e não sabe como externá-la e faz isso de uma forma errada, usando a violência. Algumas pessoas me chamam de A Neutra, porque eu tenho um dom de visualizar os dois lados do ser humano, o humano mau ele não é 100% mau, assim como o humano bom, não é 100% bom. O equilíbrio deve estar presente em tudo no mundo, para que haja a harmonia. Falo sobre esse tema no meu próximo livro O Menino do Templo e a Estranha Borboleta. 

6 - MHARIO LINCOLN: Desconstruir o Amor pelo Ódio na lírica poética é fácil? Ou isso acaba interferindo no amor próprio do poeta em si? 

ANAÍRA MAFEOLI: (Risos) Eu geralmente não faço poesias de amor, mas quando esse amor está fora de meu alcance nascem poemas meteóricos, os ruídos de comunicação são inevitáveis. Um exemplo disso é o poema Mulher Pirata publicado na 'Antologia Quatro Luas', da Editora Inde. A arte já é comprovadamente uma ferramenta de terapia e quando estou chateada com algo ou alguém, escrevo, por isso os leitores se identificam, porque todo mundo tem decepções, independente de que lugar no mundo você ocupa, alegrias e tristezas, vitórias e decepções são comuns a todos. E me divirto, assim como alguns 'musos', sabem que eles me inspiram, também alguns escritores me confidenciam que eu os inspiro, e me mostram os textos, e são surpreendentes, mágicos, e literalmente excepcionais (muitos risos). 

7 - MHARIO LINCOLN: Gosto muito de sua agilidade em descortinar, organizar e transformar temas públicos tão pesados em belas poesias. Como nasce isso? 
ANAÍRA MAFEOLI: Eu fico feliz em não ser apenas uma entrevistada, mas pessoalmente você como jornalista, ser tocado pela minha poesia. O Universo fala com as pessoas através da arte, o artista é um canal, para que isso aconteça o artista tem que se harmonizar com o Universo, respeitar tudo e todos e sua evolução. É um conhecimento natural que é transmitido direto do Universo, para ele não há as classificações sociais, isso foi algo que os homens criaram, o Universo baseia-se na classificação espiritual. Em minha história de vida há fatos que surpreendem a mim mesma: antes de mim nasceu uma menina e meus pais colocaram o nome nela de Mariana Felix de Oliveira, ela faleceu em 24 horas, por complicações no parto. Um ano depois eu nasci e meus pais colocaram o mesmo nome, com menos de um ano tive uma anemia fortíssima e meus pais impedidos de me doar sangue por motivos de saúde, recebi sangue de um radialista que era conhecido como Azulão (africano). Eles contam que aprendi a ler sozinha com 3 anos de idade e vinham pessoas visitar-me trazendo jornais velhos ou textos para me ver ler. Não assisti televisão até os 14 anos (religião não permitia), e desde pequena, migrei para as brincadeiras, tarefas e conversas dos meninos devido a falta de liberdade que as meninas tinham em achar chatas e sem ação as suas brincadeiras, sendo vistas, por toda a minha família, como homossexual (apanhei muito por isso). Mais tarde provei a eles que estavam errado, nunca fui lésbica. Até hoje minha identificação é muito maior com os homens do que com as mulheres, o que continua me trazendo interpretações errôneas, mas já me acostumei. Então vejo estes acontecimentos como uma junção dos opostos e assim nasceu minha literatura que está evoluindo, para o teatro e o romance além da poesia.

Idealizadora e fundadora do Grupo Cultural e Artístico A Borboleta Azul e os UnicórniosEscritora e Professora, na empresa SEED - Secretaria de Estado da Educação do Paraná.

8 - MHARIO LINCOLN:Há influências de grandes nomes da poesia, da literatura, da vida acadêmica ou da arte em seu belo trabalho? 
ANAÍRA MAFEOLI: Sim, com certeza, para fugir do caos do meu mundo real, viajava na literatura e isso construiu quem sou. Comecei com os gibis da Mônica e Disney. Depois fui aos romances de Bianca, Sabrina e os gibis do Conan, o Bárbaro, Fantasma e Zagor, evoluí para a literatura fantástica de Sidney Sheldon, Paulo Coelho e a psicologia de Augusto Cury, a realidade da Guerra de Regine Defórges e biografias de todos os gênios de todas as áreas. Eu queria saber como eles chegaram a ser quem eram. A biografia de Rimbaud e os Poetas do Mal do Século mexeram muito comigo, totalmente trágicas. Raul Seixas e Renato Russo, Nelson Rodrigues, Cazuza, formaram a minha linha crítica, eu dizia a mim mesma, quero ser como eles. 'Admirável Mundo Novo', de Huxley, 'Não Verás País Nenhum', de Ignácio Loyola Brandão e 'Agora Estou Sozinha', de Pedro Bandeira, me mostraram para onde está caminhando a humanidade. Os filmes de psicopatas e gênios me mostraram o quanto a mente das pessoas podem estar voltadas ao bem ou ao mal. Entretanto relacionamentos atuais com intelectuais de diversas áreas, a chance de debater idéias atuais com artistas ativistas no presente momento é o que mais me emotiva, pois há uma escassez de pensadores e uma dificuldade de diálogo, em que o pensamento oposto é suprimido e assassinado, pelo grupo mais forte, assim não existe democracia. Há uma fuga pessoal dos clássicos, o que me é cobrado pelas intelectuais atuais, mas meu pensamento diversificado, vem exatamente da literatura diferenciada que curto.

9 - MHARIO LINCOLN:De onde vem essa coragem para abrir a boca, quando necessário? 
ANAÍRA MAFEOLI: Do Universo, ele me diz pra eu não ter medo, ele está me ensinando, eu sempre fui diferente, desde criança, meus pais temiam que eu desse errado na vida? Claro que sim, mas são meu equilíbrio, meu porto seguro, meu cais, meus pais, irmãos e meus filhos me deram racionalidade, responsabilidade e caráter. O restante de mim foi formado pela sociedade, cada indivíduo que passou pelo meu caminho me deixou dores ou flores. Meu coração é um mosaico. Isso tudo foi necessário para que eu me tornasse quem sou, estava sendo lapidada todo este tempo, agora estou pronta para falar.

10- MHARIO LINCOLN: Você se considera uma poeta feminista, política ou você faz suas poesias de forma livre, independente de dogmas ou bandeiras? 
ANAÍRA MAFEOLI: Não. Não pertenço a nenhum partido, religião, movimento, bandeira, etc, mas circulo por todos, converso com todos desde que sejam educados e respeitosos, tenho amigos de todas as classes, gêneros, partidos, crenças, etc, porque minha literatura é reflexiva e há pontos positivos e negativos em todos estas aglomerações de pessoas e a democracia está baseada em maior quantidade de votos e não na racionalidade das questões. Quando eu migrei para a educação que os meninos recebiam em casa, quando casada lutei para ter liberdade de estudar e trabalhar, de formar um grupo artístico em que eu era a única mulher, estou lutando pelo feminismo, e estou arcando com as consequências. Os homens não aceitaram essa nova mulher, e os índices de feminicídio, DSTs e gravidez indesejada estão aumentando e os relacionamentos sérios diminuindo, as pesquisas apontam para casais vivendo em casas separadas, relacionamentos abertos. Eu sou contra o aborto, com tantos meios anticoncepcionais, é desnecessário. Nas minhas crenças espirituais, o aborto atrasa a evolução espiritual. Sobre política, o Lula foi e continua sendo um divisor de águas, mas também tenho críticas em relação a algumas decisões do partido. 

Encerro esta entrevista agradecendo o espaço e parabenizando o belo trabalho que você tem feito Mhario Lincoln, deixando uma mensagem: realizem os sonhos de Deus, harmonizem-se, colaborem uns com os outros, evolua. Não estamos aqui para acumular riquezas materiais, mas espirituais, a prova disso é que quando você morre, a única coisa q você leva é o espírito.

Anaira Mafeoli, fundadora do coletivo A Borboleta Azul e os Unicórnios.

Esta é mais uma publicação da ACADEMIA POÉTICA BRASILEIRA/Assessoria de Imprensa

MHARIO LINCOLN é Presidente da Academia Poética Brasileira. / Informações para esta coluna: mhariolincolnfs@gmail.com CURITIBA-PARANÁ-BRASIL. Jornalista Profissional/Sindicalizado

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